Os ideogramas chineses

Não há sistema de escrita igual o sistema chinês. A língua chinesa é, de fato, uma escrita consagrada e antiga. Descobertas arqueológicas nas ruínas de Banpo (半坡) encontraram caracteres chineses de cerca de seis mil anos. Os ideogramas, chamados de “hanzi” (汉子), carregam a história e a cultura da China e estão presentes no desenvolvimento da civilização chinesa há milhares de anos.

Existem mais de 56.000 caracteres chineses. Dentre eles, 7.000 caracteres são modernos e 3.500 caracteres são os mais usados entre os chineses. Se pudermos aprender a etimologia dos principais  3.000 ideogramas, conheceremos não só os significados das palavras, mas, também os mais importantes conceitos do pensamento deste povo milenar. Isto porque é possível aprender a origem e a história da evolução dos caracteres chineses e ao mesmo tempo aprender um pouco do processo histórico da civilização chinesa.

O blog abordará a etimologia dos ideogramas chineses frequentemente. Embasando-se em textos cujas fontes serão estudos que se fundamentam em documentos das dinastias Qin e Han.

Mas, antes de tudo, é necessário compreender alguns pressupostos. É importante saber que os ideogramas são essencialmente “símbolos textuais”. Num único caracter estão imagem, som e sentido. Esta característica faz a língua chinesa ser ímpar.

O caracter geralmente aponta para algo; por exemplo, os caracteres “” (fogo), “” (carro) referem-se à realidade cuja conotação é abstrata; uma vez que a associação da realidade “fogo” ou da realidade “carro” é finalizada na ideia da própria imagem.

Como num processo inverso do nosso português, que primeiro pensamos a palavra e depois associamos a coisa, na língua chinesa primeiro encontra-se a “coisa” e logo após a “ideia”.

Nossas palavras, no português, com duas ou mais sílabas são lidas primeiro e a posteriori encontramos o sentido. Palavras chinesas com dois ou mais caracteres é necessário primeiro associar a “coisa” de cada caracter para depois abstrair o sentido da palavra. Isto porque cada sílaba isoladamente é também uma palavra. Por exemplo, “火车” significa trem – uma vez que os primeiros trens se locomoviam com o “fogo” dos carvões. Ou seja (fogo) + (carro) = 火车 -> carro de fogo.

Nos traços de um mesmo caracter muitas vezes também é possível encontrar o mesmo processo. Por exemplo “” (descanso/descansar) consiste em uma “” (pessoa) e uma “” (madeira); provavelmente porque antigamente era comum as pessoas descansarem sob as árvores. Neste caso, nesta palavra temos duas “coisas” fundidas num mesmo ideograma cuja abstração é uma síntese de dois conceitos numa nova ideia.

Mas, para quê estudar origem dos caracteres chineses? Certamente você não vai se tornar um fluente em língua chinesa por estudar a etimologia dos caracteres chineses. Mas, o bom de estudar os ideogramas é que através deste estudo é possível perceber que estudar uma nova língua não é traduzir palavras, frases, ou conceitos mas, sobretudo, pensar de maneira diferente aquilo que a vida inteira pensamos de um determinado jeito. É olhar para as mesmas coisas que olhamos durante toda nossa existência e atribuir significado por caminhos cognitivos diferentes dos caminhos que já estamos acostumados. Estudar os radicais dos ideogramas chineses é permitir pensar de uma nova maneira palavras e conceitos que pensamos no “automático” em nosso dia a dia.

Isto posto, aguardem que nos próximos posts – além de continuarmos analisando o pensamento filosófico e a história da ciência chinesa – teremos também textos sobre os principais ideogramas e radicais da língua chinesa.

Referências bibliográficas

ZHANG, Ciyun. Ancient Chinese who left their marks on history. Shanghai: Shanghai Translation Publishing House, 2015.

GUO, Shangxing; SHENG, Xingqing. A history of Chinese Culture. Henan: Henan University Press, 2010.

WEN, Qing Zhuo (文青琢); YAN, Wen Yan (言文嫣). 新编说文解字大全集编委会编著,Pequim: China Overseas Chinese Press, 2011.

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